Lições sobre finanças e empreendedorismo que aprendi com meu pai

Poucos fatores moldam tão profundamente o nosso comportamento quanto a nossa família. Aliado a fatores genéticos e do meio em que vivemos, nossa motivação em agir é bastante influenciada pelo comportamento de nossos pais.

Com enorme frequência, vemos pais educados que criaram filhos também muito educados. Não me refiro apenas na polidez quanto ao tratamento com as outras pessoas. A educação dos filhos, no sentido mais extenso da palavra, tende a ser um reflexo dos valores e comportamentos demonstrados pelos pais no convívio familiar e na sociedade.

É o que acontece com a educação financeira: pais financeiramente descontrolados tendem a criar filhos com o mesmo inconveniente. Não adianta pedir para nossos filhos serem mais cuidadosos com o dinheiro ou para que façam poupança, se nós mesmos estivermos com nossas finanças negligenciadas.

Como não aprendemos a lidar muito bem com nosso dinheiro, temos de nos esforçar em dobro para passar algum ensinamento para nossos filhos. Cassia D´aquino.

 

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Se quisermos transformar a nossa família ou a sociedade, o primeiro passo é mudarmos a nós mesmos. Palavras soltas nunca terão o mesmo valor que a força do próprio exemplo de comportamento.

Meu pai nunca estudou ou se pretendeu, explicitamente, a me ensinar educação financeira. Desconfio até que ele, há até pouco tempo atrás, nem mesmo tinha consciência desta terminologia.

Definitivamente, porém, meu pai acabou sendo a fonte mais importante de minha Educação Financeira. Através de seus próprios exemplos ao lidar com o dinheiro, construí as minhas crenças e valores sobre finanças e empreendedorismo.

Compartilho com você os principais destes conhecimentos, na esperança que sejam tão úteis para você quanto foram para mim.

1)     Conhecimento é o maior dos investimentos

Com méritos divididos com minha mãe, meu pai sempre me incentivou a ler e estudar. Como reflexo disso, me tornei apaixonado por ler e aprender coisas novas.

Desde muito cedo, eles compravam e liam gibis para mim, hábito que copiei e realizo com meu filho desde o seu nascimento. E como já é recompensador ver os livros competindo, em igualdade de atenção do meu filho, com os vídeos do Youtube!

Com meu pai, pude perceber que os estudos são a melhor maneira de se construir uma realidade melhor. Afinal, como esperar um futuro diferente, se continuamos dominando e produzindo sempre da mesma maneira, e a respeito dos mesmos assuntos?

2)     Não arriscar nada pode ser a decisão mais arriscada

Não tem jeito: se você está disposto a empreender, o risco irá fazer parte do pacote. Você terá que lutar contra a concorrência e até mesmo contra o governo, que parece fazer de tudo para que o seu negócio não vá para frente.

Mas será que não fazer nada poderia ser mais inteligente? Em um artigo anterior, o amigo Uorrem Bife colocou uma frase muito interessante:

Em um país onde um engenheiro empregado sob o regime de CLT paga quase 30% de I.R. e um empresário paga em torno de 15%, realmente tem que se pensar na hora de ser empregado.

Embora a comparação não seja a mais perfeita, a mensagem é bastante válida.

O empreendedorismo também possibilita impactar a sociedade de uma maneira mais significativa, através da geração de empregos, impostos e renda.

Mas o principal motivo de abrir uma empresa é mudar a realidade financeira de sua família.

É justamente esta possibilidade de maiores retornos que estimula os empreendedores a assumir tantos riscos ao abrirem e administrarem os seus negócios.

Afinal de contas, segundo Adam Smith:

Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que ele tem pelos próprios interesses

Voltemos aos riscos. Até 1995, meu pai desfrutava de um bom emprego, de gerente de produção de uma conceituada empresa da região. Para muitos de nós, seria uma condição perfeita, de relativa estabilidade.

Mas eis que, apoiado por seu antigo empregador, decidiu montar o seu próprio negócio, utilizando todo dinheiro acumulado até então. O que já não era muito, foi submetido à enorme carga de riscos de o negócio não dar certo. Não havia plano B.

Não é o tipo de conselho que costumamos, em Educação Financeira, recomendar a todo mundo. Até porque a maioria que faz isso acaba, infelizmente, quebrando a cara.

Mas reconheçamos o mérito dos empreendedores que conseguem prosperar em situações tão adversas como esta. Através de enormes esforços e capacidade de realização, eles conseguiram superar riscos e provações pessoais imensuráveis.

3)     Cuide e controle muito bem o seu dinheiro

cuidado dinheiro

Quem já trabalhou na empresa do meu pai, pode já ter vivenciado a sua intolerância com custos desnecessários e supérfluos. Dentro da legalidade, a luta para pagar a menor carga tributária possível também é uma fonte de preocupação constante.

Quem está de fora, equivocadamente poderia interpretar este comportamento como avarento ou algo similar. Mas, dentro das empresas, sabemos muito bem o quão difícil é fechar as contas no final do mês.

Mil reais saem do caixa com uma facilidade incomparável com relação a capacidade de ganha-los. O mesmo vale para nosso dinheiro pessoal, evidentemente: se parássemos para pensar em quantas horas (ou até dias) levamos para comprar os produtos, seríamos muito mais prudentes com relação ao nosso dinheiro. Negociar e fazer cotações seria hábito no controle financeiro pessoal, assim como é de praxe nas empresas. Ninguém gastaria mais do que ganha e não estaria, portanto, endividado.

Controlar as entradas e saídas de dinheiro também é uma lição que aprendi. Quando não planejamos ou tomamos nota dos gastos, é muito fácil perder o controle da situação financeira real.

Tal como em nossa vida pessoal, existem ciclos em que todas empresas ganham mais dinheiro. Porém, embora as oportunidades apareçam para todos, as crises também não costumam possuir discriminação. As empresas (e as pessoas) que sobrevivem a estes difíceis períodos são aquelas aptas a controlar as suas despesas com mãos de ferro.

 

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São incontáveis as horas que meu pai dedica às planilhas do Excel. Atribuo a perenidade de seus negócios à sua austeridade fiscal e ao gerenciamento das despesas, com reflexos positivos em minha empresa e também nas minhas finanças pessoais.

4)     Cuidado com os bancos

Estávamos no final do século passado. Apesar de não ter um custo de vida alto, o dinheiro que eu recebia não dava conta de pagar minhas despesas. Sendo mais franco e preciso: eu gastava mais do que ganhava.

Como os cartões de crédito não eram comuns naquela época, eram os cheques que dominavam as transações sem dinheiro vivo. Mas o efeito é o mesmo dos cartões: sem o peso das notas abandonando a carteira, é muito fácil comprar por impulso e perder o controle.

Eu vivia no cheque especial. O negócio é feito de maneira a parecer indolor para você: o sistema do banco até soma, automaticamente, o seu limite do especial com o saldo da sua conta. E te mostra como “disponível”. Tudo para dar a impressão que o dinheiro do especial já é dinheiro seu.

 

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Tal como os juros do rotativo do cartão (aquele cobrado quando se paga a fatura mínima), os juros do cheque especial eram e continuam sendo avassaladores.

Nada poderia ser mais didático que a bronca que levei de meu pai, quando ficou sabendo da situação. Quem não está familiarizado com matemática financeira, como era o meu caso, realmente não faz a menor ideia do tamanho do perigo dos juros dos bancos.

Me livrei do cheque especial e sou agradecido por nunca mais ter precisado dele. A maneira que meu pai se relacionava com o banco, de maneira geral, moldou bastante meu comportamento.

Em sua empresa, ele quase nunca usava dinheiro do banco. As exceções foram os financiamentos de maquinários pesados e do prédio da empresa. Este último quase que se tornou impagável, sendo um momento de profunda crise da empresa.

Este trauma justifica o zelo no trato do dinheiro que se toma emprestado. Se fôssemos alavancados com dinheiro de banco, talvez poderíamos ter construído uma empresa bem maior do que implementamos. Mas eu também poderia estar financeiramente arruinado e não estar aqui contando a história para você.

5)     Nem tudo é dinheiro

Em mais de 15 anos de convívio profissional, eu nunca vi meu pai levantando a voz para um funcionário, parceiro ou fornecedor.

Ele é sempre o primeiro a entrar e o último a sair. Nunca o vi tirar mais que duas semanas de férias – na maioria dos anos, poucos dias eram o que lhe restava.

Não era exatamente o caso de não poder tirar férias de um mês. Mas sim o fato de o trabalho significar tanto para ele como sua própria vida, a ponto de uma coisa não existir sem a outra. A sua garra para produzir cada vez mais é algo que levo como arquétipo de empreendedorismo.

Para meu pai, é muito fácil ser batalhador. Ele simplesmente é obstinado em produzir e trabalhar. As coisas ficam bem mais fáceis assim.

Conclusão

Precisamos de pessoas em quem podemos nos inspirar. Tive a honra de construir a minha empresa, numa espécie de laboratório/incubadora dentro da empresa de meu pai.

Através de sua figura, pude aprender diversos valores sobre empreendedorismo e sobre como tratar o dinheiro com a responsabilidade que ele merece.

O prazer por realizar, que meu pai emprega em tudo o que se dispõe a fazer, é minha fonte de inspiração para enfrentar os obstáculos da vida.

Através de uma reflexão interna, é inevitável dar a ele o crédito por diversas características pessoais, que foram moldadas em mim através da força de seu exemplo.

Sem perceber, aprendi dentro de casa a como empreender e cuidar do dinheiro. Foram as melhores aulas da minha vida.

Muito, muito obrigado meu pai.